18/3/2008
STJ mantém proibição de cobrança de tarifa de esgoto dos consumidores em MG.
28/2/2008
Município tem legitimidade para propor ação contra danos ambientais
17/9/2007
Congresso internacional reúne reitores em Belo Horizonte
Protocolo de Montreal é marco ambiental

outras notícias


fique por dentro

123
Missão: salvar o planeta
Thomas Wood Jr.
A base é a educação
outros artigos
Leia outras notícias Notícias

A água, da abundância à escassez

Correio do Estado-MS/Editoria Opinião
A competição para a obtenção de fontes alternativas de energia está obscurecendo um outro pesadelo que, mais dia menos dia, se tornará uma amarga realidade para boa parte da humanidade: a falta de água.
A escassez de água não é um problema apenas para quem mora em regiões desérticas ou em processo de desertificação. Ela pode envolver os governos dessas áreas e transformar-se numa questão política, diplomática e, em último caso, militar. E de proporções continentais.
Na Ásia, por exemplo, ainda recentemente levantou-se o temor de que o controle desse precioso líquido - que a cada dia se tornará mais precioso - pudesse ficar nas mãos dos chineses.
De fato, nenhum país teria melhores condições para exercer esse controle do que a China, que já domina todo o platô tibetano, atravessado pelos principais rios da Ásia. As vastas geleiras do Tibet e a elevada altitude dotaram esse platô de magníficos sistemas fluviais.
Eles são fonte de vida para os dois países mais populosos do mundo - a China e a Índia - assim como Bangladesh, Mianmar, Butão, Nepal, Camboja, Paquistão, Laos, Tailândia e Vietnã, onde habitam 47% da população mundial.
Ainda assim, a China, e por consequência a Ásia, é uma região deficiente de água. Para avaliarmos a gravidade do problema, bastaria lembrar que, apesar de abrigar mais da metade da população humana, a Ásia tem menos água doce - 3.920 metros cúbicos por pessoa - do que qualquer outro continente.
A disputa por recursos hídricos na China e em vários outros países da Ásia foi agravada pela disseminação da agricultura irrigada, indústrias intensivas no uso de água e pelo surgimento da classe média, que quer confortos que consomem água, como máquinas de lavar roupa e louça.
O fantasma da falta de água foi ainda reforçado pela mudança climática e pela degradação ambiental. A China, por exemplo, resgatou milhões de pessoas da miséria nos últimos anos. Mas pagou um alto preço. Estima-se que 70% dos rios chineses estejam poluídos.
Hoje, milhões de chineses bebem água com detritos animais ou minerais. Nos arredores das grandes cidades, o consumo exagerado fez com que os lençóis freáticos caíssem entre 1,5 a 2 metros por ano.
Do Paquistão ao Sudeste asiático, conflito potencial entre as nações por recursos hídricos já começa a gerar preocupação. Os chineses já anunciaram a intenção de represar ou redirecionar para o sul, o fluxo do platô tibetano. E entre os grandes rios da Ásia, apenas o Ganges começa do lado indiano do Himalaia. Pode parecer delirante nossa preocupação com a escassez de água na Ásia, quando vivemos num país privilegiado como o Brasil, que detém cerca de 14% de toda a água doce que circula pela superfície da Terra. Mas, infelizmente, a água também será - na verdade já está sendo - um problema também para nós. Não pela escassez. Mas pela sua distribuição desigual. Cerca de 80% da água disponível está na Bacia Amazônica. Por outro lado, a Bacia do Prata, onde se concentra a maior parte da população e da atividade econômica do País, já dá sinais de exaustão. São Paulo, a maior cidade do Brasil, trabalha hoje no limite.
A metrópole já importa água. As represas da região só dão conta de metade do consumo da cidade. O resto é bombeado dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Tanto é preocupante a situação do abastecimento em São Paulo que um dos projetos que está sobre a mesa do gabinete da ministra Dilma Roussef, em caráter de prioridade, é a ampliação da estação do alto Tietê, a 36 quilômetros da capital, a última fonte alcançável possível. Nas economias mais avançadas, a tendência mundial para solucionar o problema tem sido recorrer à iniciativa privada. Segundo uma recente reportagem da revista "Época", em 1980 o mundo tinha 12 milhões de domicílios atendidos por concessionárias. Hoje, são 600 milhões.
A maior concessionária do fornecimento de água no mundo, a empresa francesa Veolia, faturou US$ 13 bilhões de dólares no ano passado. A segunda, a Suez, também francesa, ganhou US$ 7,5 bilhões.
No caso brasileiro, a corrente dos defensores da distribuição pela iniciativa privada tem um argumento quase que irrefutável: o tratamento da água. O Ministério das Cidades estima que seriam necessários recursos da ordem de R$ 178 bilhões para que os brasileiros tenham água e esgoto tratados até 2020. Em resumo, nas regiões do chamado Sul Maravilha, o Brasil, país de grandes bacias e mananciais, precisa mudar sua maneira de encarar a água como um bem abundante e barato. Existem várias estratégias, desde inovações tecnológicas até a mudança de hábitos de consumo, que podem ser adotadas. Precisamos parar de matar nossas nascentes. O desmatamento indiscriminado e a exagerada pavimentação do solo estão secando os mananciais. E o que poderá ser uma coincidência dramática, ou simples ironia do destino, a cana, matéria prima do etanol, da qual o Brasil também foi generosamente bem servido, é uma das culturas mais sedentas do planeta. Calcula-se que, na produção de um litro de etanol, gastam-se 13 litros de água. Em suma, precisamos parar de matar as nossas nascentes. Essa parece ser a estratégia mais evidente.
Delcídio Amaral, senador, vice-presidente da Comissão de Infra-Estrutura e presidente da Comissão Mista dos Marcos Regulatórios