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Aquecimento global

Valor Econômico/Editoria Opinião
É difícil inferir em qualquer veredicto científico sobre o aquecimento global. Não está claro que ele está em curso e muito menos que o aumento da temperatura global que nós podemos estar vendo seja fruto da ação humana. De acordo com uma pesquisa conduzida por Bray e Storch em 2003, junto a especialistas no assunto em todo o mundo, apenas 9,4% dos cientistas disseram concordar fortemente com a seguinte proposição: "A mudança climática resulta principalmente da ação humana".
No entanto, a mídia e agências governamentais parecem ter chegado mais próximo de uma conclusão. De acordo com Patrick Michaels, que analisou o conteúdo diário de relatórios sobre o aquecimento global em dezembro de 2005, a razão entre "é pior do que pensávamos" e "é melhor do que pensávamos" é de 14 para 1. Michaels atribui este viés aos mecanismos institucionais de escolha pública. Segundo ele, a quantidade de fundos disponíveis para vários assuntos científicos como aquecimento global, Aids e câncer é finita, e portanto há uma competição por recursos entre esses temas. De acordo com Michaels, a chave do sucesso para vencer essa competição é apresentar a mudança climática como uma questão de relevância máxima.
Entender a ciência por trás do aquecimento global é uma tarefa hercúlea que vai além da capacidade do autor deste artigo. Por isso, eu aqui me dedico a uma tarefa mais modesta. Tento contribuir para um melhor entendimento das conseqüências de uma crença mais profunda na mudança climática para preços de ativos e redistribuição de riquezas entre países, firmas e indivíduos. Ou seja, o objetivo desse artigo é entender melhor quem são os perdedores e os ganhadores de uma eventual mudança climática.
Uma maneira de se pensar o aquecimento global, de forma sistemática, é supor que este é um evento que pode ocorrer a cada período com probabilidade pequena, trazendo conseqüências negativas para o nível do PIB e para a taxa de crescimento econômico. Razões que justificariam um menor crescimento econômico em um cenário de aquecimento global são a regulação e a taxação que provavelmente emergiriam sobre atividades intensivas no uso de petróleo.
Neste arcabouço teórico, a la Barro (2006), há duas principais forças que afetam preços de ativos: 1) por um lado um menor nível de produto e crescimento econômico, ou expectativa destes, implica menores dividendos, o que por sua vez, leva a menores preços de ações; 2) no entanto, um futuro mais incerto leva agentes avessos ao risco a pouparem mais o que eleva preços de ações. A segunda força só predomina em casos muito extremos em que a probabilidade ou o tamanho da catástrofe ecológica seja muito grande. Caso contrário, o preço de ações e as taxas de juros deverão cair com o aumento da probabilidade do aquecimento global.
Maior crença no aquecimento global causaria redistribuição de credores para devedores, pois o preço dos ativos que os credores detêm cairia
Vale também incorporar a nossa análise diferenças entre países, indústrias e indivíduos. Setores diferentes da economia podem sofrer conseqüências distintas em caso de mudança climática. Na verdade, alguns setores, como os de energia alternativa, podem até se beneficiar desse evento. Portanto, a força de suporte aos preços de ativos devido a maior poupança gerada pela maior incerteza deverá ser concentrada nas ações de empresas que menos sofrerão com a regulação e taxação do uso do petróleo. Além disso, uma maior expectativa do aquecimento global gerará uma redistribuição de empresas com capital já instalado com uso intensivo do petróleo para empresas com capital por instalar.
Maior crença no aquecimento global também causaria redistribuição de credores para devedores, já que com um desastre ecológico em vista, o preço dos ativos que os credores detêm cairia. Em geral, indivíduos mais ricos têm maior poupança e portanto são credores líquidos. No entanto, esse padrão não é verdadeiro entre países. A maior economia do mundo, os EUA é devedor enquanto países pobres como a China, são credores.
Países também poderão ser afetados de modo distinto por uma expectativa maior de aquecimento global devido aos seus diferentes fatores de produção. O Brasil, por exemplo, pode se beneficiar devido a sua tecnologia e abundância de terras para produzir biocombustíveis. O maior desafio para o Brasil será lidar apropriadamente com a questão do direito de propriedade. O Movimento Sem Terra tem historicamente colocado em xeque o direito a propriedade rural e é natural que esse conflito se aprofunde, uma vez que os valores das terras e de seus produtos aumentem.
Uma outra dimensão que vale analisar é como o impacto da mudança climática pode ter conseqüências diferentes para indivíduos com nível de riqueza distintos. Os mais ricos, em média, são menos avessos ao risco, ao menos em termos absolutos. Essa é uma possível razão pela qual, apenas os mais abastados detêm ações, enquanto indivíduos mais pobres têm sua carteira basicamente repleta de ativos remunerados pela taxa básica de juros. Um possível resultado desta discrepância é uma redistribuição dos menos abastados para os mais ricos, caso haja uma crença maior e passageira no aquecimento global. Isso aconteceria porque os menos abastados teriam sua poupança remunerada por uma taxa de juros menor durante o período de crença na catástrofe, enquanto os ricos continuariam a deter ativos, além de continuar a alocar parte da sua poupança para ações artificialmente baratas. Uma vez passado o temor, os ricos sairiam relativamente mais ricos, ao contrário dos menos favorecidos.
Espero ter mostrado neste artigo que o aquecimento global é um assunto com conseqüências importantes para a distribuição de renda e riqueza entre países, firmas e indivíduos e, por isso, este tema é candidato natural a ser politizado. Enquanto a ciência continuar inconclusiva, será difícil alinhar os incentivos de todos a fim de tomar passos sérios para evitar esse perigo potencial. Portanto, antes de nos concentrarmos na batalha por corações e mentes em favor de medidas para evitar a mudança climática é importante levar a cabo uma séria busca da verdade. Uma vez que a comunidade científica fique mais próxima do veredicto de que o planeta Terra como conhecemos está em perigo devido a ação humana. O problema de ação coletiva será mitigado porque estará no melhor interesse da maioria continuar a viver num planeta que já conhecemos e no mínimo aprendemos a gostar.
Igor Barenboim é doutorando em economia pela Universidade de Harvard