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Um drama sul-americano

O Globo/Ciência/ Por Ana Lucia Azevedo
Perda de geleiras ameaça cidades, agricultura e oferta de energia

A paisagem dos vales andinos, onde emergiu o império inca, está em mutação. Transforma-se mais depressa do que estimavam estudos sobre o aquecimento global, com conseqüências econômicas e sociais. Da Colômbia ao Chile, as geleiras dos Andes recuam. Com elas se vai a água da qual dependem capitais como La Paz, na Bolívia, e Quito, no Equador. Geleiras são importantes reservatórios de água, muitas vezes a principal fonte na estação seca. Por isso, esgotam-se os recursos que ajudam a sustentar a agricultura.
Biodiversidade está em risco As geleiras influenciam também o potencial energético, já que a maioria dos países andinos tem nas hidroelétricas a principal fonte de eletricidade.
- Cerca de 90% das geleiras andinas perderam até 30% de sua área nos últimos 40 anos - diz o glaciologista Jefferson Simões, representante brasileiro no Grupo de Trabalho de Neve e Gelo, uma rede latino-americana de pesquisa ligada à Unesco, e coordenador do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
As ondas de frio que castigam desde o fim de junho os países andinos cobriram apenas temporariamente de branco cicatrizes do último verão: as marcas da retração das geleiras. O professor da Escola de Geociências e Meio Ambiente da Universidade Nacional da Colômbia Germán Poveda diz que a maior preocupação são os Andes tropicais - santuários de biodiversidade e fontes de água para milhões de pessoas. Os Andes tropicais são os maiores centros de diversidade de batata e milho, por exemplo.
- As geleiras de Colômbia, Bolívia, Peru e Equador são frágeis porque estão na região tropical, onde mudanças de temperatura afetam muito a quantidade de precipitação - explica Poveda, cujo grupo monitora o desaparecimento das geleiras colombianas.
O climatologista José Marengo, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), em Cachoeira Paulista (SP), diz que a Cordilheira Blanca, no Peru, é um exemplo dramático.
- De 1950 a 2000 houve uma redução de 70% das geleiras da cordilheira.
Nem Huascaran, a geleira mais alta do Peru, a cerca de 6.000 metros de altitude, escapou - diz Marengo.
No Peru, no Vale Sagrado dos Incas, o milho floresceu por séculos graças à combinação de água, temperatura e solo. Mas nas últimas décadas, só este último permanece estável. A temperatura subiu: nos Andes tropicais ela aumentou 0,11 grau Celsius por década, contra a média mundial de 0,06 grau/década. E as geleiras, principais fontes de água nos meses secos, diminuíram.
Outra cultura afetada é a batata, que igualmente depende da água das geleiras do sul do Peru.
Nas cidades o impacto não é menor.
Setenta por cento da água de La Paz vem do derretimento das geleiras, diz Marengo. A capital boliviana pode ter em pouco tempo problemas com falta de água durante a estação seca, alerta Rodolfo Iturraspe, coordenador do Grupo de Neve e Gelo e pesquisador do Centro Austral de Investigação Científicas, em Ushuaia, Argentina.
- A geração hidroelétrica em toda a região será afetada - diz Iturraspe.
Poveda alerta para as conseqüências sociais e econômicas da redução de oferta de água em capitais como Bogotá, Quito e La Paz. E são muitas as cidades afetadas. Exemplos são Medellín e Cali, na Colômbia; Cuzco e Arequipa, no Peru; Cochabamba, na Bolívia; Riobamba, no Equador.
- Há centenas de cidades médias e pequenas que precisam cada vez mais de recursos - diz Poveda.
Na Bolívia, o fim de um símbolo Vem da Bolívia um caso simbólico: Chacaltaya. A geleira fica a 5.200 metros de altitude. Tão alto que de lá se vê o lago Titicaca no horizonte. O que não se vê mais é neve no verão. A geleira que mantinha a única estação de esqui do país quase desapareceu.
- O retrocesso foi bem documentado desde 1991. Ela perdeu 1,20 metro por ano de espessura. Essa redução é representativa para a maioria das geleiras da Cordilheira Real da Bolívia - diz Iturraspe.
Poveda classifica a situação da Colômbia como extremamente preocupante.
Um exemplo é o Nevado del Huila, que perdeu 58% da área de geleiras entre 1989 e 2005.
- Até meados do século, as geleiras colombianas terão desaparecido - afirma Poveda.