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Missão: salvar o planeta
Thomas Wood Jr. Cada ciclo de modas gerenciais cria gurus e missionários. A onda do momento é a sustentabilidade, tema fértil para pregadores

Os anos 1990 foram pródigos em gurus e curandeiros. Enquanto os executivos se deparavam com os desafios reais da competição, esses exóticos personagens promoviam poções mágicas. Ao longo daquela década, as ondas se sucederam. Primeiro, algo supostamente novo aparecia no mundo empresarial; surgia, então, um artigo na Harvard Business Review ou um livro de sucesso. Atentas, as consultorias entravam em campo, empacotando a novidade e promovendo-a como panacéia gerencial. A reforçar a mensagem – adote ou desapareça! –, os gurus entravam no palco, caprichando nos efeitos especiais e nas apresentações em PowerPoint. Com o passar do tempo, casos de fracasso vinham à tona e a onda original se esvaía, para dar lugar a uma nova onda, com novos gurus e novos pacotes de consultoria.

Os efeitos sobre as empresas nem sempre eram compatíveis com os investimentos feitos e os problemas de base permaneciam, mas isso não tirava o sono de ninguém. Durante as ondas, recursos eram investidos, carreiras eram impulsionadas e todos ficavam felizes. Assim foi com a qualidade total, a reengenharia, o e-business, a gestão do conhecimento e muitas outras pseudonovidades corporativas.


Entretanto, a partir da década de 2000, as modas perderam a atratividade e os gurus, o brilho. Agora, movidos pela pungente questão do aquecimento global, cresce no horizonte a onda da sustentabilidade. O tema não é novo: questões ambientais compõem a pauta executiva desde pelo menos os anos 1970. Porém, foi preciso que a Terra aquecesse, catástrofes ocorressem, a ONU e Al Gore se alinhassem para que o mundo corporativo se movimentasse.

Então, na esteira do movimento, vieram os missionários da causa. Ray Anderson, fundador de uma empresa norte-americana de pisos industriais, parece ser um caso exemplar. Sua experiência de conversão está no livro Mid-Course Correction (Peregrinzilla Press). No opúsculo, Anderson conta que sua conversão ocorreu em 1994. Até então, seu coração balançava apenas pelos resultados financeiros da empresa. Então, o executivo se deu conta de que sua empresa contribuía substancialmente para a degradação ambiental. A descoberta foi, segundo ele, um choque, o qual deflagrou uma mudança radical de comportamento.

Desde então, Anderson tornou-se um apóstolo das boas maneiras ambientais, a levar a luz, inicialmente, para os seus próprios funcionários e, mais tarde, para todos aqueles que quisessem ouvi-lo. Segundo recente matéria do The New York Times, Anderson fez nada menos do que 115 “sermões de sustentabilidade” pelo mundo em 2006. Decerto, não foi o único. Em suas pregações, uma mensagem passou a ser insistentemente repetida: apenas uma instituição é forte e presente em grau suficiente para virar a mesa e resolver os problemas ambientais do planeta e esta instituição é o mundo corporativo – leia-se, as empresas e seus executivos. Para convencer os bárbaros e salvar o planeta, Anderson arrematava que a sustentabilidade também é boa para os negócios. Segundo o pregador, tratar bem o meio ambiente significa ter clientes mais fiéis, funcionários mais comprometidos e maior retorno financeiro.


Conversões são eventos originalmente associados ao mundo religioso. Porém, o fenômeno pode ocorrer além dos domínios da religião, associado a mudanças profundas em valores, crenças e comportamentos. O processo costuma ter início em momentos de crise pessoal, com a busca de respostas para grandes problemas ou para os mistérios da vida. A mudança ocorre quando o indivíduo toma contato com um grupo que enfrentou questões similares e parece ter encontrado as respostas, e se consolida à medida que o recém-convertido aprofunda suas relações com o novo grupo.

Convertidos crêem ter enfrentado as trevas e descoberto a luz, e sentem-se compelidos a espalhar as boas-novas. No entanto, a audiência menos ingênua pode perceber o fenômeno como lavagem cerebral ou grosseira manipulação se a linguagem dos convertidos soar simplista e seus comportamentos parecerem teatrais.

Será o proselitismo interessado (ou interesseiro) dos missionários corporativos útil à causa da sustentabilidade? A se considerar as últimas modas gerenciais, a resposta é não. Gurus e missionários geram mais vapor do que fato, mais retórica do que ação. Eles enterram o senso crítico e simplificam o discurso, abraçam o espetáculo e prosperam como faladores profissionais. Com isso, afastam boa parte da audiência, avessa à pirotecnia. Adicionar entretenimento e emoções baratas a temas corporativos pode ser um caminho curto para o sucesso dos missionários, mas é também um atalho para o descrédito do tema tratado.

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Fonte:Carta Capital

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