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As cidades e o aquecimento global
Paulo Teixeira Os últimos relatórios da ONU sobre mudanças climáticas (IPCC), divulgados neste ano, de certa forma calaram as vozes de setores contrários à revisão dos padrões de produção e consumo da sociedade moderna. São conclusões das mais importantes instituições científicas internacionais, que agora passam a fazer parte, definitivamente, da agenda dos governos em todo o mundo. Até o presidente George W. Bush, que tem se recusado a assinar o Protocolo de Kyoto, parece ter sido influenciado. Recentemente anunciou que irá propor metas para reduzir emissões de gases.No leque de desequilíbrios responsáveis pelo aquecimento global, as cidades figuram como consumidoras de 75% da energia e produzem 80% dos gases-estufa. No mês passado, prefeitos de 32 cidades dos cinco continentes, do chamado C-40 (grupo de 40 metrópoles criado no ano passado), se reuniram em Nova York, para discutir medidas emergenciais a serem adotadas. São medidas já previstas nas convenções internacionais, mas que ainda não foram implantadas nas demais cidades.
Nova York apresentou plano ambicioso: pretende cortar em 30% as emissões de gases-estufa até 2030. Berlim reduziu em 26% as emissões, com sistemas adequados de iluminação, refrigeração e aquecimento em mais de 1.400 edifícios. Em Barcelona, prédios novos ou reformados são obrigados a usar 60% de energia solar para aquecer água. Woking, na Grã-Bretanha, reduziu o consumo de energia em 52% e as emissões em 82%, com o uso de energia solar e descentralização da produção de energia. Copenhague, na Dinamarca, resolveu em 97% o problema de calefação, com energia produzida a partir do lixo. Em Rizha, na China, cidade com 3 milhões de habitantes, o uso de energia solar é obrigatório e está disponível em quase todas as residências.
A sociedade dispõe de instrumentos suficientes para evitar males maiores à biosfera, mas falta a parte mais difícil: despertar a vontade política nos governantes e mudar a cultura da sociedade de consumo, que se sustenta em hábitos e estruturas de produção industrial consideradas superadas. Há de se mudar os padrões arquitetônico e urbanístico, o modelo de produção de energia, ainda muito centralizado, o tratamento dos resíduos sólidos, os meios de transportes, a produção industrial, agropecuária, o relacionamento com a água, no que se refere à conservação e uso, enfim, substituir os atuais modelos de geladeira, chuveiro elétrico, ar-condicionado etc.
Nesse movimento de mudança da cultura dita “moderna”, a indústria, a arquitetura e a engenharia precisam se entender e procurar, por exemplo, fabricar equipamentos domésticos como torneiras, vasos sanitários e outros, levando em consideração a conservação e o reúso da água, assim como reservatórios para captação de água de chuva. Construir residências sob novos padrões de auto-sustentabilidade, com aproveitamento, da ventilação e insolação, para evitar o consumo de energia. Praças impermeabilizadas com cimento e asfalto precisam dar lugar a jardins arborizados para amenizar a temperatura das cidades.
Quanto aos combustíveis, muito se avançou no Brasil. O etanol, o biodiesel e o hidrogênio chegaram para mudar a matriz energética. Já temos ônibus urbanos no Rio de Janeiro movidos a biodiesel derivado do óleo vegetal utilizado em restaurantes da cidade. Também temos ônibus movidos a hidrogênio, usinas elétricas a gás produzido por resíduos sólidos urbanos tratados adequadamente. Na Grande Belo Horizonte, cerca de 1.300 edifícios usam placas solares na produção de energia. O mesmo ocorre em Salvador e em outras capitais, como Florianópolis, que inclusive dispõe de projeto para abastecimento do aeroporto com energia solar. Além disso, a eficiência energética pode proporcionar, segundo estudo do WWF, uma redução do consumo em até 39%.
Portanto, no processo de auto-sustentabilidade das cidades há muitas iniciativas importantes, mas parece que governantes e investidores não foram suficientemente despertados para o grande potencial de desenvolvimento econômico e social oferecido pela mudança dos padrões atuais de funcionamento das cidades. Há uma economia a ser movida, principalmente na produção de equipamentos adequados à produção de energia de fontes renováveis, à conservação e reúso da água, no manejo e reaproveitamento dos resíduos sólidos, na construção de vias e veículos para a mobilidade urbana, de forma a reconstruir as cidades em outros padrões de urbanismo, mais humanizados e condizentes com as necessidades dos novos tempos.
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Fonte:Correio Brasiliense/Opinião
em 04/07/2007
